A Vida em 6 Minutos

A Vida em 6 Minutos


Foram exatamente 6 minutos o tempo da minha filha nascer, desde o momento em que eu entrei na sala de parto.

Me preparei no banheiro, colocando a roupa que me pediram (quase igual a um cirurgião, com touca, máscara e acho que só faltaram as luvas). Conferi se a câmera estava com o cartão de memória e se tinha bateria. Certo, tudo ok.

Fiquei alguns minutos parado em uma sala antes de me avisarem que a minha esposa estava pronta, e depois de uns 15 longos minutos (meses) me falaram que eu poderia assistir ao parto. Eu entrei meio perdido, poderia dizer até que meio tonto, e vi que a minha esposa estava inerte na mesa de cirurgia, com todos os equipamentos, luzes e tudo o que se tem direito, igual aos filmes e séries, no estilo Grey’s Anatomy.

Os médicos riam e conversavam, tentando me descontrair com o nervosismo e eu tentava não deixar transparecer que eu estava ansioso, segurando a minha boca firme para não parecer que eu estava tremendo. Então, logo, eu só conseguia sorrir com os cantos da boca.

Eu tentava respirar fundo, com a esperança de sincronizar os meus batimentos cardíacos com o monitor cardíaco da minha esposa, mas os meus pulmões não colaboravam e pareciam que estavam dentro de uma caixa de fósforo.

“Não, eu não vou desmaiar” – pensei. Não faz sentido isso, pois já tinha assistido tantos partos na internet (normal, natural, cesárea, de cócoras), mas fiz questão de ficar ao lado da minha esposa, atrás de tudo, em vez de assistir ao corte das famosas 7 camadas do corpo da minha mulher.

Perguntei pra minha esposa se ela estava bem, mesmo depois de tomar a injeção diva chamada Rack, ela só não sentia nada abaixo do pescoço e respondeu que estava bem.

Comecei a sentir um cheiro de churrasco, mas sabe aquele cheiro de carne sem sal, apenas cheiro de carne? Me peguei imaginando por 1 minuto o que seria isso, e quando percebi que a cada barulho da máquina ao lado, segundos depois sentia esse cheiro.

Arregalei os olhos (olhando pra baixo, pra minha esposa não perceber), e pensei: “Puta merda! É um bisturi elétrico!”. Ele faz o corte e já cauteriza pra estancar o sangramento. Mas ao abaixar a cabeça, o anestesista encostou a mão no meu ombro e perguntou se eu estava bem, gentilmente informando que se eu desmaiasse, eu iria ficar caído no chão até acordar, pois a prioridade era a mamãe. Fazia sentido.

Se passaram mil coisas na minha cabeça, mas a única que se repetia a cada segundo era: “Será se ela vai chorar quando nascer?”. Era a maior das preocupações, e não conseguia escutar mais nada dentro da sala e nem me mexer. Parecia que era eu que tinha tomado a diva rack.

Quando me dei conta, (cena de filme, os sons voltam) o obstetra disse: “Vai nascer!”, eu levantei ainda meio perdido, liguei a câmera e comecei a filmar.

Primeiro saiu a cabeça, os braços e o resto do corpo. Em seguida escutei o barulho mais assustador e mais importante em toda face da terra, o primeiro choro de um bebê. Eu ri, mas foi uma risada misturada com choro e logo depois entrei em um estado de êxtase.

Nada, mas nada no mundo se compara a sensação de assistir o seu filho nascer. Nada no mundo se compara a ouvir o primeiro choro. Nada paga isso e nada tem tanto valor, quanto a esse momento.

Não, eu não tirei aquela famosa foto do papai, da mamãe e do bebê. Eu fiquei alguns segundos parado olhando para aquela criatura e me perguntei: É assim mesmo? EU PEÇO PERDÃO TODO DIA POR ISSO! Mas eu pensei: “Meu Deus, coloquei uma pessoa feia no mundo!”. Me perdoem vocês também, mas eu não sabia que os bebês nasciam tão inchados.

Essa sensação durou 3 segundos, e depois fui chegando perto. Sabe cachorro quando é desconfiado, e vai cheirando aos poucos e chegando perto? Na verdade, eu tinha medo! Não sabia o que fazer, eu estava bagunçado.

Ela estava em um aparelho em que não deixava a temperatura do bebê diminuir, até acostumar com a temperatura do ambiente. Eles a limparam, pesaram e eu continuava escutando a melhor música de todas, aquele choro estufando os pulmões que não eram mais virgens.

Tirei fotos, mandei fotos no grupo do whatsapp e pra todo mundo. Era a coisa mais emocionante que eu já tinha presenciado na vida. Parecia que eu ia explodir de tanta coisa que eu estava sentindo.

Pediram pra eu sair, pois precisavam terminar os procedimentos (costurar as 7 camadas) e esperei lá fora até a minha rainha e a minha princesa fossem para o quarto. Sentei, e chorei, chorei, chorei, chorei e chorei de soluçar. Em silêncio. E chorei mais um pouco.

Eu achava que eu tinha presenciado o maior momento da minha vida, conforme citei ali em cima, mas não foi. O maior momento foi quando eles estavam preparando o quarto, e tiveram que deixar a minha filha do lado de fora naqueles carrinhos de maternidade, e essa hora, estava só eu e ela.

Sabe aquele momento de paquera? Eu fiquei paquerando ela alguns segundos de longe, pensando de chegava perto logo e puxava um papo. Fui dando alguns passos curtos, e acho que se alguém me olhasse, ia pensar que eu ia roubar o bebê.

Pois bem, ela estava enroladinha no cobertor de hospital, com touca e quietinha, apenas mexendo a boca fazendo sons de preguiça, soltando gemidinhos.

Eu parei, peguei ela no colo, olhei para aquele rostinho lindo (já tinha desinchado ok?), e disse com os olhos cheios de lágrimas (de novo): “Oi minha pretinha, eu sou teu pai”.

Ali, foi quando me dei conta que aquela vida estava dependendo da minha, e que ia mudar tudo de um jeito que eu jamais imaginava. E para sempre.

Esse é o meu relato de onde a minha vida começou.

 

A minha vida em 6 minutos.

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